Michael Crichton e a Paleontologia

Você acredita em fantasmas? Ecos de um passado remoto, solidificados na nossa realidade na forma de um enigma? Alguns apenas lembranças tristes de algo que já se foi há muito, outros espectros assustadores que nos fazem perder o sono à noite. Diferentes em suas histórias, mas igualmente presos em um mundo que seguiu em frente sem eles.

Paleontólogos sérios provavelmente vão torcer o nariz ao ouvirem sobre fantasmas. Tais fenômenos não têm respaldo na ciência, mas de certa forma, são fantasmas o que eles estudam. Quando um ser vivo morre e acaba enterrado por milhões de anos, a matéria orgânica de que era constituído se decompõe e é substituída por rocha. Ou seja, a coisa que morreu nem está mais lá, o fóssil é apenas uma cópia em 3D do que havia no passado.

O trabalho dos paleontólogos é basicamente desenterrar fósseis e tentar entender como eram e como viviam essas criaturas. (Não confundam com arqueologia, que é parecida, mas se dedica a investigar as culturas humanas através de qualquer vestígio deixado.) Tal tarefa pode ser comparada a resolver um enigma cuja solução exata jamais poderemos ter, por isso precisamos nos contentar com a melhor resposta possível. Sabemos relativamente pouco sobre a história da vida na Terra, mas esse pouco é o suficiente para explodir cabeças.

Por muito tempo, essa ciência esteve longe dos holofotes do cinema mainstream, já que a rotina dos paleontólogos envolve muita pesquisa, silêncio e um bom tempo diferenciando rochas normais de ossos rochosos. Mas isso mudou em 1993, quando Steven Spielberg lançou o filme Jurassic Park e fez os paleontólogos confrontarem alguns de seus objetos de estudo no mano a mano.

No filme, um grupo de cientistas é levado a uma ilha onde um ricaço excêntrico quer criar um parque temático com dinossauros recentemente ressuscitados graças a novas descobertas em engenharia genética. Enquanto eles analisam a proposta da atração que ainda não abriu, uma empresa rival está de olho nos segredos comerciais escondidos na ilha, e para roubá-los investe num esquema de espionagem industrial. O plano obviamente dá errado e a segurança do parque é desativada, libertando os animais de suas cercas para que possam tocar o terror geral.

Vi esse filme quando era pequeno, a lembrança que tenho é de ter tido bastante medo dos dinossauros e de ter ficado maravilhado com as ideias “científicas” expostas pelo longa. Ele incutiu corretamente a ideia de que tudo é possível e que a ciência podia trazer ao mundo tanto maravilhas quanto coisas horrendas.

Acontece que, como todo bom filme, este também foi adaptado de um livro. No caso, “Jurassic Park” de Michael Crichton.

Além de escritor, Crichton foi médico, roteirista, produtor de cinema, diretor de cinema e produtor de televisão. Suas histórias se alimentavam de conceitos científicos e dilemas modernos e entregavam boa ficção, o que fazia os estúdios de cinema brigarem para adaptar seus trabalhos. Faleceu em 2008, vítima de linfoma.

Pelo que já li do trabalho dele, percebi que era muito bom em conduzir suspense e sabia como desenvolver personagens no meio da loucura que o scify costuma ser. Abordava temas que nos incomodam bastante hoje em dia: O uso indiscriminado da tecnologia pelo capitalismo, os limites éticos do uso da ciência e da tecnologia pela humanidade, a vã tentativa de controlarmos a natureza e a irresponsabilidade humana.

Como o leitor de scify bem deve saber, toda aquela especulação sobre onde a ciência pode nos levar nada mais é do que uma desculpa para debatermos temas bem atuais, e Crichton tinha o dom para isso.

Por exemplo: em 1973 era lançado o filme “Westworld: Onde Ninguém tem Alma”, escrito e dirigido por Crichton. No filme, em um futuro próximo, uma empresa cria um parque temático de faroeste com animatrônicos tão avançados que são quase indistinguíveis de seres humanos. Lá, os visitantes se vestem de cowboys e se divertem fazendo coisas que seriam impossíveis do lado de fora. Até que (adivinhem!) a inteligência artificial dos robôs sai do controle, transformando o parque numa luta pela sobrevivência.

Reparou como a ideia parece incrível? Em 2016 a HBO fez uma série de mesmo nome que começou muito bem, mas não conseguiu sustentar a qualidade e foi cancelada prematuramente. Mesmo assim, vou deixar aqui a dica para vocês assistirem a primeira temporada, que é absurda de boa.

Além de Jurassic Park, Michael Crichton também publicou alguns livros incríveis que eu gostaria de indicar por aqui. O primeiro é “Congo”, sobre uma equipe de cientistas que embarca numa expedição capitaneada por uma empresa inescrupulosa (Olha ela aí de novo) em busca de diamantes supercondutores na África Subsaariana. O problema é que a jazida desse minério está no meio de ruínas antigas cercadas por estranhas criaturas semelhantes a gorilas.

Esse livro é datado como um computador Apple II, mas diverte e nos apresenta muitos conceitos interessantes. Lembro-me de pensar: “Ei, isso dava um filme bacana…” antes de descobrir que o filme existe e eu já tinha visto algumas vezes na Temperatura Máxima. Aposto que poucos vão se lembrar dessa relíquia do fundo do baú.

O outro livro, que me inspirou a escrever este artigo, é “Linha do Tempo”, de 1999. A sinopse me atraiu de longe: um grupo de arqueólogos e historiadores, financiado por uma grande empresa inescrupulosa (Ué, de novo?) escavam um sítio arqueológico na França. Eles estudam o período em que ali havia uma aldeia medieval com seu castelo, que agora está em ruínas. Quando o chefe da escavação desaparece, seu filho e colegas vão atrás de seu paradeiro na sede da tal empresa, onde descobrem que ele usou uma nova tecnologia (há!) para viajar no tempo e digamos… fazer uma pesquisa de campo.

É um dos melhores livros sobre viagem no tempo que já li, Crichton chegou ao ponto de colocar referências bibliográficas nas últimas páginas, para embasar os conceitos científicos. A narrativa é vertiginosa e não deixa a peteca cair em nenhum momento, trazendo aquele ar fresco de aventura que costumamos procurar em livros antigos. Virou um bom filme em 2003, protagonizado pelo Paul Walker.

Os exemplares desses livros, com exceção de Jurassic Park, estão meio raros hoje em dia, mas podem ser encontrados em sebos, no site Estante Virtual ou nas boas e velhas Bibliotecas Públicas. Sugiro que experimentem procurar na biblioteca mais próxima, costumam estar lá, meio carcomidos e implorando para serem lidos.

Como crítica ao trabalho de Crichton, me incomodou a forma como ele foi cético em relação às mudanças climáticas. Em seu tempo de vida, já existiam sólidas evidências de que o clima da Terra estava mudando pelas ações humanas e que as consequências seriam catastróficas. No fim ele admitiu o que estava acontecendo, mas o pé atrás nunca fez sentido para mim.

Acho que Crichton também não era o tipo de pessoa que acreditava em fantasmas, mas o trabalho dele, de certa forma, falava bastante sobre isso. Os paleontólogos lidam com fantasmas de animais mortos há milhões de anos, os arqueólogos com humanos mortos, sussurrando de suas tumbas há vários séculos. Michael Crichton lidava com os fantasmas do futuro, assuntos que puxam o pé da humanidade todos os dias e vêm daquela região assustadora e misteriosa que perturba tantos de nós.

Um lugar chamado “E se…?”

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